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quarta-feira, 29 de abril de 2009

05 livros para serem lidos em uma maratona literária:


Uma das coisas que eu mais gosto em Porto Alegre é a cena cultural. Talvez porque eu conheça como é a vida no interior, onde se tu tem um gosto musical ou literário um pouco menos popular acaba se tornando um estranho no ninho, valorizo o ambiente que a capital gaúcha propícia para as pessoas interessadas em algo mais do que aquilo que a mídia tenta enfiar goela abaixo.

Semana passada, no dia 22 de abril, foi realizada uma Maratona Literária no Centro Municipal de Cultura. Quem conhece lugares como este e tantos outros que podem ser encontrados em Porto (como a Casa de Cultura Mario Quintana e o Santander Cultural) sabe que a atmosfera destes lugares é algo que transcende a localização. Então nada melhor que copiar a maratona que já ocorria em Madri (porque sim, tudo o que é bom pode ser copiado) e transformar em algo legitimamente gaúcho.

Na primeira edição da empreitada, o livro escolhido foi "Cem anos de solidão" do escritor colombiano, Gabriel García Marquez. Para quem ainda não captou qual a ideia destes encontros, nada melhor do que usar a apresentação da comunidade do evento no orkut para descrevê-los: "Um livro, uma data e um lugar para leitura em grupo. Cada um lê, em voz alta, os trechos que desejar entre goles de café e algumas pausas para recuperar o fôlego da corrida. Ao final do livro ou do fôlego dos leitores será a vez da premiação literária". Para as próximas edições do evento, a escolha do livro será feita por meio de enquetes na Internet, por isso, aqui eu registro as minhas cinco indicações:

05) "As cidades Invisíveis" - Italo Calvino: admito que ainda não acabei a minha leitura, mas posso vislumbrar a ideia de um grupo de pessoas lendo em conjunto e todos sentindo aquelas emoções intensas que são despertadas quando percorremos este livro, com suas memórias descritas como se fossem algo que vive alem da lembrança do autor, mas também está na nossa. Pela catarse emocional que deve provocar no grupo, esta é a minha quinta opção...

04) "Grandes Esperanças" - Charles Dickens: que Dickens é um dos meus escritores prediletos, a maioria deve saber. No entanto este livro é o escolhido no meio de tantos mais renomados porque é ele quem consegue provar como o escritor inglês era um profundo conhecer da sociedade e do ser humano. De certa forma, lendo Dickens também é possível perceber que nós podemos ter evoluído muito, mas nem por isso somos assim tão diferentes...

03) "As três Marias" - Rachel de Queiroz: para não dizerem que só são valorizados os escritores estrangeiros, aqui está uma representante da literatura brasileira, e ainda mais, uma mulher. Percebo que a maioria dos jovens tem o nariz torcido para as obras do nosso país porque o vestibular de certo modo é capaz de traumatizar a capacidade leitora destas pessoas. Então, por isso, sendo uma traumatizada recuperada, digo que este livro de Rachel de Queiroz é o remédio perfeito para quem quer voltar a apreciar a capacidade criativa de nossos autores...

02) "Os sofrimentos do jovem Werther" - Goethe: se Cem anos de solidão é impactante, o que dizer da obra de Goethe? Uma coisa é certa, ninguém fica imune a história, que mesmo sendo curta não precisa de muitas páginas para prender o leitor e levá-lo a percorrer um labirinto nada feliz, mas que nem por isso é menos inspirador. Quando li Os sofrimentos do jovem Werther, minha impressão foi que por mais triste que seja a história, o que mais importa não é a capacidade de nos 'deprimir' e sim a de fazer com pensemos sobre tudo o que está a nossa volta e até que ponto somos culpados pelas nossas própria escolhas. Complicado de entender? Então vai ler o livro...

01) "O velho e o mar" - Ernest Hemingway: finalmente o meu escolhido. Hemingway é um autor que sempre estará nas minhas listas. Mas não importa o quão clichê possa ser, O velho e o mar sempre vai me deixar estupefata. Ás vezes parece impossível de compreender como um livro tão singelo pode abrigar tamanha profundidade, mas também sempre concluo que a complexidade não esteja na vida em si, mas em nós mesmos. Não há chance de alguém ler este clássico de Hemingway e não ficar com um milhão de perguntas em mente depois. E é isso que eu vejo como objetivo em uma maratona: alem de valorizar os livros, fazer com as pessoas percebam que a literatura é um meio para o conhecimento...

No próximo Receituário: um é bom e dois pode ser melhor ainda...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

05 livros que me tornaram leitora...

O semestre derradeiro chegou. Dia 9 de janeiro de 2009 devo receber meu diploma de jornalista. E por incrível que pareça esse deve ser o semestre que devo escrever “menos”. Não que fazer a monografia seja pouco trabalho escrito, ou ainda realizar meus dois projetos de ensino, mais estágio de jornal e ainda o restante das cadeiras. A verdade é que num comparativo entre o que eu vou escrever e o que eu preciso ler, a segunda opção ganha disparado.

Eu quero tornar os próximos meses nos mais prazerosos e memoráveis possíveis. Ou seja, passar tanto tempo lendo não me incomoda, até me diverte. Sempre gostei de ler. Antes de desbravar o mundo das palavras com os meus próprios olhos, já adorava ouvir histórias. Agora eu fico pensando o que será daqueles que não tem o hábito da leitura?

Nunca é tarde para desenvolver o costume de devorar as páginas de um livro. Se alguém não teve a sorte que eu tive de ter uma mãe professora de português que ganhava coleções de livros ou então um irmão mais velho que mesmo morando longe sempre te mandava um livro de presente, eu vou dar uma chance. Plagiando o Topismos, aqui vai a minha lista com as obras que me tornaram leitora:

5) O mistério da cidade fantasma – Marçal Aquino: quem nunca leu um livro se quer da Coleção Vagalume, não teve infância!!! Se tratava simplesmente da seleção de histórias mais legais, dos autores mais interessantes. É claro que tinham alguns exemplares que não faziam muito a minha cabeça, especialmente aqueles que eram cheias de moralzinha e ensinamentos. Meu interesse mesmo estava nos livros de mistério, como este que eu adorava. Não é a toa que mais tarde fui virar leitora de Agatha Christie. Marçal Aquino era meu segundo escritor predileto, o primeiro tu descobre depois...

4) Um conto de Natal – Charles Dickens: sabe aquelas histórias que tu ouve um zilhão de vezes e acha o máximo, mas nem sabe quem a criou? Eu lia sem parar essa história em um dos volumes do Tesouro da Juventude (pessoas pós-anos 90, não devem saber do que se trata). Eu precisei crescer um pouquinho para descobrir que o conto sobre um velho sovina que recebe a visita dos fantasmas do passado, presente e futuro, se tratava na verdade de uma das obras de um escritor fabuloso chamado Charles Dickens. Depois disso foi só mergulhar no mundo do Oliver Twist e de Grandes Esperanças...

3) O cavaleiro da rosa no supermercado – Antônio Hohlfeldt: leituras escolares obrigatórias nunca me incomodaram muito (pelo menos até a chegada do período pré-vestibular). Esse livro li na sexta série e falava sobre um rapaz pobre que se mudava para uma cidade grande (Porto Alegre). Lembro que o autor foi até na minha escola conversar com os alunos. Eu era fascinada pela história porque me identificava com o personagem Alexandre, e tinha certeza (e ainda tenho) que o local onde ele trabalhava é o supermercado que fica aqui do lado do meu prédio. Mais tarde, coisa do destino, o escritor veio se tornar meu professor na faculdade, na cadeira de Leituras em Jornalismo, uma das mais interessantes que já tive...

2) Sozinha no mundo – Marcos Rey: aqui está meu autor predileto da coleção Vagalume. Dificilmente tinha um livro de Marcos Rey que eu não gostava (com exceção dos poucos em que ele quis dar uma mexidinha com ficção científica, que não é a minha praia). Mas o meu livro de cabeceira e coração era Sozinha no mundo. Bem que tentei encontrar uma imagem boa da Pimpa para colocar no meu álbum de alter-egos no orkut, mas não achei. Eu amava tanto esta história triste, emocionante e misteriosa, que cheguei a recomendar para a minha mãe colocar como leitura do semestre para os alunos dela. Se eles gostaram ou não, não sei dizer, só sei que este livro sempre foi parte importante da minha história...

1) A casa das 4 luas – Josué Guimarães: finalmente o livro que mais me encantou ainda criança. Foi na quinta série que li A casa das 4 luas pela primeira vez. Todas aquelas imagens construídas pelo escritor gaúcho me deslumbravam e me levavam para o mundo daquele grupo de crianças que sai para acampar. O que eles vão descobrindo aos poucos é o mundo muito alem das cercas do sítio da família. Depois disso, Guimarães virou um dos meus ídolos, inclusive obriguei a minha mãe a comprar outros livros dele pra mim, mas nenhum se equiparou à Casa das 4 luas!

No próximo Receituário: mais uma ladainha...

sábado, 22 de dezembro de 2007

05 personagens que valeriam uma grande reportagem...

Devido à falta de subsídios, traduzindo: computador decente e internet, o Receituário ficou parado! Mas era preciso voltar antes que 2007 acabe! Antes de 2008 ainda vem a lista de melhores discos de 2007! Como diria Regina Spektor: you just have to wait...

Aos poucos vou entrando em modo stand by. Preciso descansar um pouco e planejar o ano seguinte porque tenho uma pedreira pela frente: a temida monografia. Com anteprojeto pronto, agora é hora de por a mão na massa e a pressão é grande.

Então, como tenho respirado jornalismo literário, resolvi fazer uma lista um pouco diferente. Como fã de grandes nomes deste gênero jornalístico (porque não é apenas literatura!!!) como Gay Talese, Tom Wolfe, Joseph Mitchell e Norman Mailler tentei imaginar: se pudesse escrever grandes reportagens do tipo O Segredo de John Gould ou qualquer uma contida em Fama e Anônimato, sobre quem eu faria?

De repente, assistindo um filme, me deparei com a idéia: existem personagens no cinema tão humanos e fascinantes que se fossem reais seriam grandes temas para até mesmo um livro. Para preservar a integridade da idéia de realidade, tirei qualquer personagem de filmes de fantasia. Não é dessa vez que eu entrevisto o Sirius Black!!! Aqui vai a lista de 05 personagens que valeriam uma grande reportagem...

05) Frank Slade - provavelmente só há um ator que conseguiria implacar mais personagens nesta lista do que Al Pacino (e ele aparece depois). No entanto não conheço alguém mais intrigante que o cego de Perfume de Mulher. Se Hunter Thompson acompanhou a saga do Hell's Angels, viajar por Nova York com uma pessoa que não enxerga dirigindo, seria no mínimo fascinante! Sem contar que a cena do tango daria uma bela observação detalhadíssima...

04) Trevor Reznik - como esse homem se transformou no Batman? Em O Operário, Bale dá vida a um homem que está prestes a morrer porque sofre de insônia. Trabalhando em uma fábrica Trevor coloca a própria vida e a dos outros em risco devido a todos os efeitos colaterais de um ano sem dormir. Não apenas a integridade física está a perigo, mas também a sanidade de Reznik. Uma das frases que define o filme seria um ótimo ponto de partida para uma grande história: Como você acorda de um pesadelo, quando não está dormindo?

03) Lester 'Worm' Murphy - as reportagens policiais ficaram muito mais interessantes depois do surgimento do jornalismo literário e apesar de Truman Capote ter me decepcionado em outras obras, A Sangue Frio sempre será um clássico. Então, para uma boa reportagem criminal eu gostaria de seguir os passos do personagem de Edward Norton em Cartas na mesa. Concordo que o ator tem outros personagens mais fascinantes como em As duas faces de um crime ou Clube da Luta, no entanto Murphy está imerso no mundo da jogatina que eu acho extremamente interessante...

02) Ethan Powell - finalmente o ator que mais dificultou minha vida. Como escolher apenas um personagem do grande Anthony Hopkins. Isso que descartei de cara a chance de entrevistar Hannibal Lecter! Então fiquei entre o assassino que quase realizou o crime perfeito e o antropólogo de Instinto. Venceu a antropologia! Powell é um antropólogo que vai morar na selva da África para estudar macacos e desaparece. Quando ele finalmente é encontrado, dois anos depois, ele parece ter o instinto assassino da sobrevivência adquirido pelos anos de convivência com os animais. Internado em uma clínica para doentes mentais, dai se desenrola uma grande investigação psicológica sobre a vida de Ethan. Resumindo, homem passa a viver em meio a macacos e se torna assassino quando volta a civilização. Manchete longa mas chamativa...

01) Arthur Abbott - finalmente o número 1, o homem que inspirou essa lista. Que eu adoro o filme O Amor não tira Férias, todo mundo sabe. Mas apesar de Jude Law sempre ser um grande atrativo, a razão do meu afeto no filme de Nancy Meyers é esse personagem vivido por Eli Wallach. Arthur é um antigo roterista de filmes clássicos de Hollywood. Agora, já velhinho, ele guarda em casa e na memória, lembranças da era dourada do cinema americano. O discurso de Arthur quando ele vai receber uma homenagem pela sua contribuição para o cinema define bem o personagem: "Eu vim para Hollywood a mais de 60 anos e imediatamente me apaixonei pelos filmes. E este é um romance que tem durado uma vida inteira. Logo que eu cheguei a Inseltown, não havia cineplexes ou multiplexes. Nada do tipo Blockbuster ou DVD. Eu estava aqui antes dos conglemerados serem donos dos estúdios. Antes dos filmes terem equipes de efeitos especiais. E definitivamente antes dos resultados do box office ser noticiado como o resultado do baseball no jornal da noite...". Horas e horas de conversas passariam como um raio, com tantas histórias maravilhosas para serem contadas...

No próximo Receituário: apenas os melhores...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

5 discos para ouvir em um retiro intelectual...

Dostoiévski, Shakespeare, Danzy Senna, Anteprojeto, Projeto de Online e TV, Trabalho de Teoria Literária, matéria para o Hipertexto... são alguns dos percausos que tenho que enfrentar até semana que vem. O feriadinho (que vai se tornar feriadão por minha livre e espontânea vontade) veio a calhar!!! O Receituário está precisando ficar calado um pouco. Porém não quer deixar de cumprir a meta mínima de um post por semana. Por isso decidi deixar as 5 amigas da Julieta de molho mais um pouco (porque a eleição tem que ser minuciosa), para fazer algo mais rápido, quase uma divagação...

Já que tenho 3 livros para ler até terça, e mais aquele monte de coisa, meus próximos momentos serão destinados a me trancafiar no quarto com meus livros, meus discos e nada mais (como eu adoro parafrasear essa música)! Para quem se encontra no mesmo estado que eu, lá vai a dica de 05 discos para ouvir nestes momentos de retiro intelectual!

05) The Secret Machines - Now here is nowhere: como ando muito cansada, tenho que fazer força para acordar todos os dias. E como preciso de todo tempo do mundo para ler muito, é bom colocar o relógio para despertar cedo até no Domingo. Então sair do estado de estagnação mental do sono para um fluxo de consciência acelerado nada melhor que The Secret Machines! Meu rádio já liga direto em Nowhere Again, injeção de adrenalina no ouvido!

04) Paul Westerberg - 14 songs: interessante que em momentos que preciso me concentrar, tenho a tendência de ouvir mais artistas solo do que bandas. Será que Freud explica? Nesse disco, o vocalista do Replacements une músicas suaves com alegres, vide Knocking on mine, e quando você vê se passaram os 48 minutos do disco (isso quando ele não fica no repeat por tempo indeterminado) e conseguiu ler mais do que achou que conseguiria...

03) Bright Eyes - Cassadaga:
eu não queria por o último disco de senhor Connor Orbest porque ele estará na minha lista de melhores do ano. Mas não posso evitar o efeito estimulante que a música dele tem! Ouvir algo inteligente, profundo mas que ao mesmo tempo é pulsante. Pode ser o estilo dos livros que estou lendo mas, Hot Knives por exemplo, parece uma trilha perfeita para Hamlet. Frases de impacto tanto em Cassadaga quanto na longínqua terra da Dinamarca...

02) The National - Alligator:
quase dormindo em cima dos livros, coloco Abel e levo um choque de 1000 Voltz! Depois da corrente elétrica, outras faixas como Daughters of the Soho riots ajuda a iluminar as idéias. Se The National não estivesse nessa lista do que tenho ouvido atualmente, eu teria que colocar Nick Cave no lugar, mas com ele eu admito que é mais difícil manter a concentração por um longo período!

01) Ella Fitzgerald - Sing me a swing song:
certa hora é impossível não ficar, quase desistindo dos afazeres. Então pego o rádio, ponho esse disco, vou tomar banho ouvindo Ella e contínuo os estudos bem relaxada, porque é isso que a voz de Miss Fitzgerald faz comigo! Me deixa novinha em folha! Dá até vontade de esboçar um sorriso ao ouvir You'll have to swing it. Simplesmente porque Ella é Ella!

Agora de volta ao batente, mas... Interpol! No Brasil! Março de 2008! Meu aniversário... dor de estômago!

No próximo Receituário: de volta com as amigas da Julieta...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Atendendo a pedidos...

Finalmente pude reservar um tempo para atender a dois pedidos que me foram feitos! Começando pelo mais difícil:

Você sabe o que é um Meme? Pois é... eu também não sabia! Fiquei sabendo através da comunidade Eu tenho um blog. A convite do Negão Internauta e com explicação do próprio, lá vai:

"O que é um Meme?"
Meme é tipo uma corrente entre blogueiros. Os memes, em geral, funcionam assim:
1º Alguém inventa um Meme. Exemplo
2º Esse alguém fala para quem quiser postar sobre o assunto e passar adiante.
3º As pessoas que gostaram postam sobre o meme em seus blogs e convidam os mais próximos a fazerem o mesmo. Exemplo
4º Os mais próximos postam o meme e passam adiante
5º E assim vai se espalhando...

O Meme proposto pelo Negão é sobre filmes, mas cada um escolhia o seu tema. No meu caso, para fechar com o segundo pedido que responderei, escolhi dois filmes adaptados da literatura.

Não é a toa que o Oscar tem uma categoria de roteiro adaptado. Clássicos da literatura são ótimos pontos de partida para películas. Mas muito se discute quanto a qualidade dessas adaptações, e freqüentemente alguém solta o comentário: o filme não é fiel ao livro. De uma vez por todas, não dá para entender que são dois meios diferentes, com linguagens distintas. Agora, com livros saindo direto da gráfica para o cinema, essa situação só deve se agravar. Aqui vão dois filmes que talvez não tenha visto, mas valem a pena:

O velho e o mar (1958):

Que eu idolatro Ernest Hemingway isso não é novidade, mas este filme é a prova que uma adaptação pode ser fiel, praticamente sem tirar nem por! Assisti o filme para fazer um trabalho comparativo entre o original e a versão e posso afirmar, para quem acha que até diálogos devem ser preservados em casos como esses, aqui está um ótimo exemplo. Mas admito que o livro ainda é melhor. Talvez pelos poucos recursos da época, o filme é lento e as metáforas de Hemingway parecem se perder em meio a imagens repetitivas.

Grandes esperanças (1998):

Eu simplesmente idolatro esse filme e se possível, quando me formar em Letras, faço a minha monografia comparando esta produção com o original escrito por Charles Dickens. No caso do filme de Alfonso Cuarón, a adaptação ficou livre o bastante para modernizar a história escrita no século 19. O diretor tirou a trama do velho mundo Londrino e trouxe para a cidade que tem novidade até no nome, Nova York. É difícil falar de um filme tão perfeito. Sobre a trilha pelo menos eu consegui. Leia aqui...

O segundo pedido que me foi feito veio do blog da minha amiga, Lívia. Quem nunca participou de correntes literárias? Aqui vai mais uma:

1. Pegue um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abra-o na página 161;
3. Procure a 5ª frase completa;
4. Poste essa frase em seu blog;
5. Não escolha a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repasse para outros 5 blogs.

Meu resultado, extraído do livro "Odisséia" de Homero (editora Cultrix, 2006):

" - Por que, sendo assim, não o puseste ao corrente, se em teu coração tudo sabias? ".

Minhas 5 indicações para responder ao Meme e (ou) a corrente literária? Ah, não quero obrigar ninguém, mas só para não ir contra a corrente indico a Lívia (vai que o Meme é teu hehehe), o Negão, o Yan (que fez a bondade de criar o lay do Receituário), a Maitê (de blog novo) e a Ingrid (agora com um motivo para atualizar).

No próximo Receituário: faça de mim uma pessoa sugestionável...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Reflexões rápidas 3

A edição de Setembro da Revista YMSK entrou no ar e eu nem tive tempo de divulgar aqui no Receituário. Entre as matérias da vez estão: trilha sonora de La Femme Nikita, biografia do Elvis "o rei" Presley, resenhas de Okkervil River, Gogol Bordello e Ira!, capa com Bo Diddley e mais a Discotopia: 10 obras literárias que inspiraram obras musicais.

É estranho promover algo com tanto atraso, mas não sou só eu que ando ocupada. De qualquer forma a edição 13 da YMSK que deveria ser lançada em Outubro está pendurada por tempo quase indeterminado. Novidades em breve...

Outubro é mês de...
Dia das crianças e de Tim Festival! Como não importa a quantidade de manha que eu possa fazer, minha mãe não vai me dar de presente a ida para este festival. Björk aqui não vou... nada de The Killers, nem Feist...

Muitas pessoas já me perguntaram porque não dou um jeito de ir pra Sampa, ou até para Curitiba que é mais perto. Assim como pessoas que irão sair aqui no Rio Grande não entendem qual o problema logístico para eu assistir Brandon Flowers e companhia, pois bem, eu repito... falta de dinheiro e tempo! Se Setembro foi puxado, Outubro só não vai superá-lo porque me organizei no tumulto do mês que passou.

Mesmo se eu pudesse assistir as atrações do Tim, teria que ser na cidade da garoa porque o show que mais despertaria curiosidade na minha pessoa, não vem para as proximidades...

Se puder não perca, por mim...
No dia 28 de outubro, as 20 horas e 30 minutos, o público do Auditório do Ibirapuera poderá ver nomes importantes do jazz contemporâneo se apresentando no Festival que prima por agradar o público indie. Mas mais interessante que os nomes principais que sobem ao palco é um dos ilustres convidados, Cecil Taylor.

O pianista de 78 anos começou a carreira lá pela década de 50 e logo foi reconhecido por seus improvisos e sons avant-garde. Com o tempo, Taylor poderia ter se encaixado aos padrões musicais que costumam ditar as regras do mercado musical, mas na verdade, o senhor parece manter seu lado radical à flor da pele, ousando de um modo que nem os mais jovens se atrevem a ousar.

A primeira vez que ouvi Cecil Taylor pensei "esse cara é doido". Não estava errada uma vez que o nova-iorquino pode ser tudo menos ordinário. Suas harmonias muitas vezes se assemelham aos barulhos industriais que vieram a fazer sucesso nos anos 80. Mas Cecil não faz rock n' roll e sim Jazz! Suas obras parecem ser trabalhadas como grandes construções arquitetônicas, muitas vezes duras, sem curvas, em busca de alguém capaz de moldá-las...

Ouvir Cecil Taylor pode ser um negócio arriscado, como andar por uma obra sem capacete. Mas não há porque ter medo de ser atingido por um tijolo. Depois de um tempo, tudo o que parecia ruído se transforma numa bela demosntração de virtuosismo.

A propóstio... sim, eu ouço Jazz... assim como música clássica! Como ninguém sabe disso? Por que esses dois estilos só fazem parte da minha seleção quando eu estou sozinha, reclusa, sem ninguém por perto... não me pergunte porque...

De um louco para outro...
Se Cecil Taylor força os limites, outro cara que fez isso é Hunter S. Thompson. O escritor de Fear and Loathing in Las Vegas e grande nome do estilo Gonzo de jornalismo foi parar na capa da revista Rolling Stone americana. Eu quero!!! Mais barato que ingresso e viagem para o Tim!

Tomará que a filha brasileira publique a reportagem. Minha monografia agradecerá uma vez que falarei sobre jornalismo literário! A primeira versão do anteprojeto já foi aprovada! Sim, eu disse que Setembro foi puxado...

No próximo Receituário: alguém sente falta das minhas listas?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Portfólio IV

O que é: grande reportagem sobre o site Mojo Books usando a linguagem do jornalismo literário
Aonde: publicada na revista Ufa!, criada na cadeira de Projeto Experimental em Jornal Livre
Quando: 1º semestre de 2007
Imagem: fotos minhas com o tratamento de Manuela Kanan
Observações: a Ufa! venceu o prêmio de melhor Publicação Impressa - Projeto Experimental no 20º Set Universitário.

Livros, discos e muito mais...

A música composta por Zé Rodrix e Tavito dizia algo como “Eu quero uma casa no campo, onde possa plantar os amigos do peito, meus livros e discos...“. Na voz de Elis Regina, a canção sempre me deu uma sensação de saciedade por falar sobre as coisas que eu realmente queria na vida. Contínuo querendo meus livros, meus discos e amigos por perto, mas casa no campo só se tiver computador e Internet. Mal da modernidade? Vício em tecnologia? Há uma razão especial para colocar o computador e a Internet na lista de essenciais: a Mojo Books (http://www.mojobooks.com.br/).

A Mojo Books não é só mais um espaço para publicação de textos desordenados ou então um site com resenhas literárias. Um Mojo Book é muito mais, é a união perfeita das necessidades campestres: música e literatura. A premissa é simples, mas deliciosamente curiosa, como uma canção da Björk ou um livro de Oscar Wilde: se um disco pudesse ser convertido em palavras, que história ele contaria?

O dilema do início...
O que veio antes, o ovo ou a galinha? A literatura ou a música? No caso da Mojo Books, o começo foi com música. Quanto ao ovo ou a galinha, nunca cheguei a uma conclusão.

O criador e editor do site, Danilo Corci explica como foi o nascimento do projeto: “Na década de 90, eu e o Ricardo Giassetti tínhamos uma banda e usávamos a literatura como parte de nossas composições. A banda acabou em 98 e, ano passado, começamos a conversar sobre um eventual retorno. Daí me ocorreu a idéia de fazer justamente o contrário”. O princípio mojísitco é simples: livros com histórias baseadas em discos, criados em ambiente digital, formato PDF, totalmente gratuitos. Corci é formado em Produção Editorial e trabalha como editor na Revista Speculum (www.speculum.art.br), uma revista eletrônica dedicada aos novos aspectos da produção cultural, um espaço para o debate e divulgação das formas de arte, e que acabou servindo como incubadora para o embrião que viria ser a Mojo Books.

Nasceu!!! No dia 02 de dezembro de 2006, Black Celebration do Depeche Mode estava lá, prontinho para quem quisesse baixar, não em áudio, mas em palavras escritas pelo próprio Danilo. Era o princípio de uma longa jornada que em 6 meses rendeu pelo menos 25 livros.

A Mojo Books é praticamente uma ONG, dedicada a propagar os valores literários pelo planeta, em kbytes. O projeto é bancado por Danilo. Custos de produção, banda de downloads... sai tudo do bolso do pai da Mojo. Mas vale a pena porque dá para alcançar objetivos criativos maiores, que são concentrados na vontade de criar uma cultura pop que estimule a leitura e também, quem sabe, em revelar novos talentos literários. Os primeiros sortudos que puderam espalhar o Mojo foram convidados pelos editores. Agora, o site já tem obras esgotadas e aceita colaborações de interessados desconhecidos. Mas não basta dizer que quer e sabe escrever, tem que provar passando pelo escrutínio do processo editorial, a revisão e finalmente edição.

Opa, para tudo!!! Obras esgostadas? Mas não era literatura virtual? É, mas o número de downloadas é limitado por motivos simples explicados por Corci: “Trabalhamos como uma editora física real. Temos tiragens para cada livro. Fazemos isso para possibilitar novas edições revistas pelo autor, com novo projeto gráfico e, também, criar a cultura ‘sebo Mojo’, para os próprios leitores trocarem os arquivos esgotados, gerando mais interação”. Quem quiser se arriscar na criação de um Mojo Book deve respeitar certas regras: os livros não podem ter mais de 30 mil caracteres e devem ser ficcionais. Aqui biografias ou auto-ajuda não viram best-sellers.

Falando em mais vendidos, ou melhor, mais baixados... Na competição por maior número de downloads, os Beatles são os grandes campeões. O livro Revolver, escrito pelo DJ, Jota Wagner, chegou aos 1000 exemplares baixados em menos de 2 meses. Os livros 1 e 2, Black Celebration e Technique (escrito pelo outro editor do site, Ricardo Giassetti, e baseado no disco do New Order) também não estão mais disponíveis.

A Mojo Books é um projeto único, mas que, apesar do sucesso, não tem a ambição de revolucionar a literatura. A vontade dos envolvidos com a editora virtual é ser um expoente para o surgimento de novos autores, que daí sim poderiam ser considerados membros de um novo movimento literário, um estilo próprio da literatura de Internet, mas como disse a mente por trás da Mojo Books, “literatura é um texto criativo de alguém”. E, se tratando de alguéns, a Mojo Books está bem servida, com um cardápio completo de mentes pensantes criativamente ativas que agradam a todos os gostos.

A perseguição da vida...
Nome, CPF, RG, endereço... esqueça essas informações, elas só são essenciais nos cadastros e fichas desagradáveis de preencher, com literatura e música a coisa é mais intíma. Paulo Ferro Junior nasceu, cresceu e sobreviveu em São Paulo há quase 27 anos. Na mistura de artes, ele ainda adiciona o teatro, mas não vive apenas disso. Os cinemas, peças e livros são pagos com alguns serviços de freelancer em editoria.

Com 14 anos começou a escrever pequenas peças, depois rumou para as narrativas mais longas. Então parou! Aos 19 anos redescobriu o prazer de ler e escrever. Em 2003 acabou seu primeiro livro 10 Canções de Amor. Entre o título com sonoridade musical e a Mojo Books apareceram mais um romance, cinco peças de teatro, um projeto editorial chamado Muro (www.edmuro.kit.net) que usou para lançar o livro de contos Sobre o Infinitivo e outras inúmeras histórias foram contadas em revistas virtuais e blogs.

Paulo foi parar na Mojo pelo famoso Q.I. Uma amiga o indicou para o serviço, e logo o livro baseado no disco The Life Pursuit do Belle & Sebastian começou a tomar forma. Por que a escolha do álbum? ”Posso dizer claramente que o Belle & Sebastian é uma influência. Seus cds tocando enquanto escrevo são uma fonte de inspiração inacreditável. Inspiração que gera o livro que homenageia a fonte de inspiração”. O círculo vicioso foi alimentado pelas músicas dos escoceses ouvidas no repeat, por horas e horas... Frases e imagens começaram a se formar... depois tudo ia sendo construído, em várias tentativas, até que de idéia passou para o concreto. O Mojo Book nº10 estava pronto.

Paulo não pára de escrever, segue a regra que a prática leva à perfeição. Também lê muito e gostaria de ver os discos Hein!, do Nei Lisboa, e Closing Time, do Tom Waits, transformados em literatura, não por suas próprias mãos e sim escritos por Marcelo Montenegro e Mario Bortolotto. Quem sabe o Quem Indica faça efeito de novo...

Enquanto não se aventura em mais um Mojo Book, o sobrevivente paulista do teatro e literatura continua pavimentando sua estrada. The Life Pursuit foi apenas um pedaço. Paulo adorou a experiência na editora virtual, mas não acredita que seja a única solução para os que querem ser escritores, nem um livro publicado de forma convencional resolveria todos os problemas. Só há um caminho a seguir: “A solução é não desistir, é seguir em frente, é trabalhar, trabalhar, trabalhar, escrever e escrever. Porque é só o que importa: escrever. E se alguém ler, se muitos alguéns lerem, melhor ainda”.

Literatura é o esquema...
No começo do trajeto pela estrada das palavras, música e literatura andavam juntas na forma de críticas musicais e poesias. O próximo passo da jornada veio em um mergulho na literatura brasileira, enquanto ainda rascunhava estórias em um caderno na busca por técnicas de escrita: “Li os Azevedos e arrisquei meu primeiro livro. Logo invadi as páginas de Jorge Amado e aprendi muitas técnicas legais para prender o leitor”. É por esse caminho que o representante comercial de medicamentos, André Gamma chegou à Mojo Books.

O mundo do recifense de 27 anos vai muito além de bulas de remédios e propagandas de laboratórios. O primeiro chute na porta do mercado literário veio na forma do livro A Bela do Morro. A obra underground, própria definição de seu criador, foi distribuída entre amigos e depois jogada na Internet. Na Mojo Books encontrou a união perfeita entre música e literatura, ou como ele mesmo definiu, uma sacada genial de atitude inteligente.

Histórias reais aglutinadas em outras, recortes de casos contados, personagens baseados em características reais se juntam para construir o enredo de Samba Esquema Noise. O ponto de partida para a história número 21 foi o disco do grupo recifense Mundo Livre S/A. Trilha sonora da adolescência do escritor, as canções dos conterrâneos também criaram uma atmosfera sonora típica da musa inspiradora de André: “O Recife geralmente é minha fonte de inspiração”.

André ferve por sua terra. Suas palavras são contaminadas por tamanha paixão que dá vontade de pegar o próximo avião direto para a capital de Pernambuco. O carinho por suas raízes aproxima o leitor da cidade, assim como Jorge Amado o colocou em contato com a Bahia: “Sempre fui um cara bairrista em relação a Pernambuco, mas ao ler Jorge Amado, fiquei com muita vontade de conhecer Salvador e seu povo!”. Mas voltando a música...

André gostaria de ler um livro baseado nos discos de Raul Seixas, mas também há outros que são uma boa pedida como Chico Science, Itamar Assumpção, Lô Borges... músicos brasileiros acima de tudo: “O catálogo maior da Mojo é internacional. Vou ver se escrevo uma estória de pescadores envolvendo a Lia de Itamaracá ou o Erasto Vasconcelos”.

O patriota entusiasta chegou a adaptar um disco dos Secos e Molhados, transformando o disco, com músicas como O Vira e A Rosa de Hiroshima, em uma trama bem viajada, mas que extrapolou o número de caracteres. Por algum minuto o escritor sentiu que sua força criativa estava sendo barrada? Não, claro que não! Por mais que goste da Internet, André preserva a tradição e prefere livros em formato tradicional: “O computador e a internet podem facilitar a vida das pessoas, mas não eliminam canetas e cadernos. Dizem que o Ariano Suassuna escreve suas estórias em um caderno. Acredito que muitos autores façam assim. A ausência de um computador não é desculpa para deixar de escrever”.

Com tanta vontade de escrever, André Gamma já tem outras obras que estão apenas esperando correção e edição. Anos Mofados, Sofia, Os momentos finais de Samara e Cidade Estuário podem sair quentinhas do forno a qualquer momento, mas de preferência em papel. Como disse o autor, ler na tela do computador dá sono... ”Dói a bunda e a vista!”

O fim é o começo da introdução...
Filipe Luna também tem 27 anos, nasceu em Recife, mas, por favor, não o culpem. Ele não pode escolher onde queria que a cegonha o deixasse. Mas escolher a profissão ele pode, então ter se formado em Arquitetura é culpa total dele, que depois foi levado a escrever através da paixão por música.

Repórter da Trip, colaborador dos sites Radíola Urbana e Coquetel Molotov, antes da Mojo Books teve uma experiência literária: Batalha nas Estrelas. Luna, lua, estrelas... combinam perfeitamente! O livro foi escrito por um Filipe, 20 anos mais novo, que era fã dos filmes de George Lucas. A grande lição da primeira tentativa não teve muito a ver com práticas de escrita: “A história era boa, as ilustrações nem tanto. Acho que desde aquela época eu já devia ter me tocado que não prestava para desenhar”. Arquiteto que não sabe desenhar contra criança que gosta de contar história... o destino estava traçado. Agora, só faltava pegar o disco Endtroducing, do DJ Shadow, e transformar em Literatura.

Os dias de estudante de Arquitetura ainda deixaram vestígios no comportamento de Filipe, pelo menos no que se refere ao processo de criação do livro, que pode ser comparado a uma conta matemática: “Eu sempre achei que o disco tinha uma atmosfera de sonho, meio como uma trilha sonora para um coma. Daí, eu tinha pensado numa história em que o personagem principal estava em coma. Só foi juntar 1+1!”.

“Quando eu e Cecília começamos a namorar, meu avô estava muito doente. Na verdade, ele foi a causa de nossa primeira briga. Na noite em que ficamos juntos pela primeira vez, só fomos nos deitar pouco depois das cinco da manhã. Quando percebi que horas eram, disse que precisava ir embora. Não tinha nem ficado cinco minutos de conchinha (...) Até eu explicar que precisava ir porque meu avô estava doente; que todo domingo eu tomava café com ele; que o velho sentava à mesa às seis da manhã, o nome mais bonito que ela tinha me chamado foi de ‘cafajeste aproveitador’.” Realidade ou ficção? O dilema se espalha também pelo enredo de Endtroducing: “Nem tudo é de mentirinha na história, tem muita coisa que é autobiográfica, apesar de não ser uma história autobiográfica”.

Depois da Mojo Books, Filipe não se envolveu mais com literatura, mas, como ele mesmo disse, é porque não foi atrás. Quanto ao futuro, parece que ele pretende deixar que os astros decidam... ou quem sabe a Lua?

Escrevendo uma história cheia de lágrimas...
Cantor nacional ou internacional? Escritor brasileiro ou estrangeiro? Na Mojo Books tem para todos os gostos. Pablo Melgar tem 31 anos e nasceu em Cuzco, no Peru, mas não pousou na Mojo Books de pára-quedas. O peruano é também um publicitário que adora brincar com textos, escrevendo vários contos. Durante um tempo, morou em São Paulo, onde conheceu Danilo Corci. O futuro editor da Mojo Books, além de amigo se tornou crítico dos textos de Melgar. Junto com o nascimento da Mojo, veio o convite para escrever uma história especialmente para o site.

A escolha de American IV, do cantor norte- americano Johnny Cash pareceu natural. De tão fã do músico, Pablo o chama com intimidade de Juanito Plata. O apelido soa engraçado destoando do enredo da história baseada no disco que conta com músicas tristes e dramáticas, dignas de uma tragédia grega: “Toda vez que ouvia o disco, sempre imaginava a história de um anti-herói derrotado e humilhado tentando se reerguer. E todo o tracklist do álbum parece fazer uma jornada, quase tarefas de Odisseu”.

Em vez da Grécia de Homero, o cenário foi transportado para o período da Segunda Guerra Mundial com um anti-herói derrotado e humilhado tentando se reerguer: “Dizem que o medo tem um gosto amargo, tão amargo que é capaz de paralisar a salivação (...) que faz escorrer uma pequena lágrima que embaça a vista e embaralha as reações”. É fechar os olhos e imaginar o mesmo parágrafo lido pela voz grave que costumava cantar canções como I’m so lonesome I could cry.

“Gosto muito de escrever, mas de certa maneira, gosto muito da idéia de publicar em ambientes digitais. Tira a pressão por resultados de vendas e tudo mais”. Se Pablo resolver repetir a dose e basear um livro em música, ele já tem algumas opções em mente: Disintegration, do The Cure ou qualquer disco dos mexicanos do Molotov. Se depender da primeira experiência, o peruano tem grandes chances de voltar a baixar aqui no Brasil, virtualmente pelo menos: “A Mojo expandiu minhas idéias, a literatura digital pode ser bem feita e divertida também”.

Você está pronto?
Troque o terno preto do Juanito Plata por uma roupa chamativa como um caleidoscópio lisérgico em uma sala iluminada por um globo espelhado. Agora é hora de festa! O mestre de cerimônias atende pelo nome Guilherme Choovanski, e a trilha para a celebração é Deee Lite! Não se lembra dos criadores de World Clique? Que tal cantar e dançar esdruxulamente Groove is in the heart? Agora sim estamos falando a mesma língua.

O paulista de 29 anos (por mais alguns meses) trabalha com Direito, mas tem a literatura como passatempo, mais ler do que escrever. Blogueiro, roterista de quadrinhos, mestre de RPG, Guilherme foi convidado para escrever quando sua notória capacidade narrativa chegou aos ouvidos dos editores da Mojo.

Por que tirar a poeira do LP, ou melhor, fita K7 da banda que teve apenas um sucesso arrasador em 1990? Tudo é uma questão de oferecer opções: “Quando o Ricardo Giassetti me explicou a proposta do Mojo Books, eu mandei um e-mail com quatro alternativas: Um conto sobre um relacionamento com cenas de flashback e final infeliz baseado o The Queen is Dead, do Smiths. Uma história meio sobrenatural, passada em Londres com personagens indianos, inspirado no cd K, da banda de britpop Kula Shaker. Um conto de gangues de Los Angeles, com uma garota no papel principal, baseado no Tragic Kingdom, do No Doubt. Ou um conto lisérgico de ficção científica, bem viajado, baseado no World Clique, do Deee Lite. O Giassetti foi específico. Sugeriu que eu pegasse o Deee Lite. Primeiro porque eles já tinham contos demais sobre relacionamento, depois porque achava a banda a minha cara”.

Decisão aceita e acertada...

Não só o visual de Lady Miss Kier e companhia são alucinógenos. World Clique é assim também, ou na própria definição de Choovanski “é todo lisérgico, vibrante e positivo”. A banda com inspirações à Parliament Funkadelic e Sly and Family Stone foi um dos primeiros expoentes da música eletrônica. As batidas do estilo delinearam um conto de ficção científica doido, viajado, inimaginável mas com uma mensagem positiva no final. No total, a viagem tem 12 capítulos de duração. Mas, no final, o leitor pode brincar com a rota que quer seguir durante a leitura, como se fizesse um remix característico da música eletrônica. Como disse Guilherme: “Queria que o livro permitisse no final que o leitor remixasse a história, relendo na ordem que quisesse, à la Quentin Tarantino”.

Dos livros que um dia poderiam ser escritos, Choovanski gostaria de ler uma adaptação de Veneno de Lata, de Fernanda Abreu: “É o disco que faz a ponte do funk ligando o morro com a classe média carioca. E desconstrói a garota de Ipanema, transformando-a na garota carioca, suingue e sangue bom”. Um próximo projeto para o paulista, quem sabe? Não! Por que? “A história teria que ser escrita por alguém do Rio. Ou que conhecesse bem os modos e as dinâmicas daquela cidade. Senão ia soar artificial, sem graça”. Já fica aí a sugestão para quem quiser exercitar o intelecto...

Lady Stardust cantava suas canções de escuridão e consternação...
Homens, homens e mais homens... assim a Mojo Books está mais para Clube do Bolinha do que para editora virtual. Mas não, também há lugar para Luluzinhas! Maria Lutterbach é de Belo Horizonte. Jornalista freelancer, escreve para a revista literária de bolso, Mininas. Revistas literárias não são comuns, de bolso então, menos ainda, mas uma revista literária de bolso com textos feitos por mulheres. O mundo habitado por Evas, Afrodites e Marias também pode influenciar as crônicas que Lutterbach escreve para o jornal O Tempo. Maria também mantém o blog Notas Submersas desde 2003.

Quando a moça de BH tomou conhecimento da Mojo Books não perdeu tempo: procurou os editores, mostrou seus trabalhos e propôs sua idéia. A publicação de The Rise and Fall of Ziggy Stardust, o vigésimo Mojo Book, é a prova que seu trabalho agradou.

Na música, Ziggy Stardust é um alienígena que deu uma passada aqui pelo planeta a convite do cantor inglês David Bowie. As roupas incomuns, que de tão justas só poderiam ser usadas por um ser esquelético, os brilhos constratando com a pele pálida, quase translúcida, os cabelos vermelhos espetados e completados pelo famoso mullett, ajudaram Ziggy a conquistar a Terra com sua banda The Spiders from Mars. O mesmo anfitrião do marciano foi o responsável por seu fim.

Ziggy estava morto até que Maria o ressuscitou na pele de Z. Mas para que isso acontecesse, sacrifícios foram feitos: “Esquecer a cerveja com os amigos por alguns dias, sentar na frente do computador com uma jarra de água do lado, sobreviver ao calor e escrever”. O processo de criação parece desgastante, mas porque Ziggy? “Além de ser realmente fã do disco, o escolhi porque, apesar de trazer uma onda glam e andrógena, tem para mim uma grande pitada de melancolia”.

O declínio deste Ziggy é causada por assuntos bem mais contemporâneos do que os intemperes de outro planeta. “No pacote de pão de forma, Z lê pela trigésima vez naquela semana a frase ‘Livre de Gorduras Trans’. O aquecimento global fritando miolos sem misericórida, o Apocalipse já com data marcada e a comoção nacional gira em torno da gordura trans”.

Voltemos a Lady Maria Stardust. Z subirá aos palcos em uma cena teatral, dentro do projeto Cenas Curtas, realizado em Belo Horizonte pelo Galpão Cine Horto. Por enquanto Maria está aproveitando suas férias bem merecidas, mas com certeza seus pensamentos continuando borbulhando, fervendo, cozinhando e preparando a próxima empreitada.

E o futuro da Mojo Books?
O site provou ser um espaço democrático e talvez seja seu maior mérito. Há literatura feita na Internet bem cuidada e para todos. A maioria dos que já colaboraram com histórias não se dedicam exclusivamente à literatura, por mais que fosse a vontade mais profunda. Também é provável que sem a Mojo Books e suas facilidades, os mesmos aspirantes a literatos não tivessem a chance de publicar um livro.

Se esse é o futuro da literatura, não dá para saber! Sempre haverá alguém que tentará barrar as novas técnicas literárias, mas o espaço da Mojo Books é sem limites, ainda há muito a oferecer aos internautas. O que importa é que agora os livros e discos não são mais o bastante. Que Elis Regina me perdoe, mas concordo com Austin Powers: Mojo é essencial!

No próximo Receituário: muitas mininas...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Portfólio III

O que é: reportagem sobre as condições da literatura contemporânea
Aonde: jornal Hipertexto
Quando: Julho de 2007
Imagem: por Sabrina Feijó
Observações: eleita a melhor Reportagem Impressa no 20º Set Universitário. Veja a lista completa de vencedores.

Literatura atual relê clássicos
A utilização do passado no presente caracteriza os livros contemporâneos

As prateleiras das livrarias estão repletas de novas opções para os habituais consumidores de literatura. A novidade, entretanto, é parcial. Os livros que mais se destacam trazem histórias muito parecidas, abordando temas e personagens semelhantes. Entre as formas literárias recorrentes, as obras em série conquistam fãs e geram lucro para as editoras. A dúvida quanto à capacidade da literatura inovar nas fórmulas se instala.

Apesar do sucesso recente das coleções, esse não é um costume novo como explica a doutora em literatura e professora da Faculdade de Letras da PUCRS, Sissa Jacoby. “As obras literárias têm sua origem no folhetim, com os romances publicados em pedaços nos jornais. Na pós-modernidade, continua a questão de prender o leitor com um personagem envolvido em novas aventuras”.

As obras em séries conquistam fãs, mas também coletam críticos que seguem o pensamento do crítico literário Walter Benjamin: para ele, a arte ganha em quantidade, mas perde em qualidade. A professora do Instituto de Letras da UFRGS Márcia Ivana de Lima e Silva acredita na existência do diferencial na nova literatura: “É da quantidade que sai a qualidade. Os grandes escritores atuais conseguem dar um passo além, eles lêem a tradição e depois a trazem para a contemporaneidade”.

A literatura estaria ligada ao princípio em que tudo pode ser recriado. Um exemplo são os contos de fadas que fazem parte da cultura popular desde a Idade Média, mas foram esquecidos por um tempo até serem revisitados. “Eles começaram a serem retomados nos anos 60, 70 e ascenderam na década de 90, com desenhos da Disney. Hoje, Harry Potter é um conto de fadas ampliado que também tem elementos das histórias de fantasia, detetives e mitos”, conta a professora da PUC.

Márcia, professora da UFRGS, considera discutível tentar delimitar o que é original na literatura: “Às vezes a origem não está em Poe, ou em Conan Doyle, está antes, nos gregos até nas cavernas. A Bíblia, por exemplo, é um material farto que é reelaborado na literatura”. O diferencial está no talento inventivo de cada escritor, como no caso de Ítalo Calvino que utiliza elementos da mitologia oriental e das Mil e Uma Noites, no livro Cidades Invisíveis. Até mesmo o escritor Jorge Luís Borges dizia que estava tecendo sempre o mesmo texto. Há um ponto positivo nessa reinvenção, como salienta Márcia: “A vinculação com os clássicos é uma prova que a literatura contínua viva e que os novos escritores também são leitores da tradição”.

O recontar de histórias gera o reaproveitamento de personagens. A literatura está repleta de figuras marcantes que reaparecem em obras que muitas vezes não tem ligação com a anterior. Fausto é um exemplo que reencarnou inúmeras vezes em obras de autores como Goethe, Thomas Mann e Álvares de Azevedo.

Outro nome que reutilizou suas criaturas foi Machado de Assis. Quincas Borba aparece no livro em que é protagonista e em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aires intitula o Memorial de Aires e em Esaú e Jacó, história em que Assis se inspirou na trama dos irmãos que aparecem na Bíblia em Gênesis. “Mesmo na literatura, a linguagem dos textos se repete, fazendo um jogo de personagens que reaparecem em contextos de ação diferentes”, diz Márcia.

Para Sissa Jacoby, a repetição de personagens é usada para fazer uma reflexão: “Essa retomada é uma característica da literatura contemporânea que reflete sobre o passado com uma intenção crítica”. Uma figura que faz parte da literatura em tempos diferentes é Sherlock Holmes. A primeira menção ao nome foi feita no conto A aparição de Senhora Veal, publicado em 1704 por Daniel Defoe. Em 1880, os nomes Sr. Watson e Sr. Sherlock inspiraram Arthur Conan Doyle. Mais recentemente, em 1995, Jô Soares usou o detetive em O Xangô de Baker Street, uma paródia entre a história e a literatura policial, na qual personagens ficcionais interagem com pessoas reais, como Dom Pedro II, fazendo uma crítica a modernidade literária e histórica.

Autores se tornam personagens
De construtores de histórias a personagens de outras narrativas. Assim alguns escritores são imortalizados em histórias em que passam a ser personagens. Está se tornando comum, autores clássicos serem homenageados, não com biografias, mas como parte de um enredo fictício.

Livros consagrados como A Última Quimera, de Ana Miranda, e Em Liberdade, de Silviano Santiago, utilizam Augusto dos Anjos e Graciliano Ramos como protagonistas de uma trama. Na coleção O Bairro, Gonçalo Tavares transformou pessoas como Kafka, Brecht, Calvino e Fernando Pessoa em vizinhos para que, em cada livro, possa falar da trajetória destes homens, misturando realidade e fantasia. A professora Márcia Ivana Lima e Silva, da UFRGS, vê nestas obras uma maneira de aproximar o leitor do escritor: “Como coordenadora dos arquivos literários de Guilhermino César e Caio Fernando de Abreu, vejo como a dimensão humana do autor é genial para aproximá-lo do leitor, que passa a vê-lo também como um ser que tem conflitos e se dedica a literatura com vontade”.

José de Alencar foi precursor da interatividade
A proximidade do leitor com a obra literária cresce de forma que, para muitos, acompanhar histórias não é mais o suficiente. Juntando a vontade de se envolver diretamente com as tramas, com as facilidades proporcionadas pela internet, nasceram as fanfictions, histórias publicadas na web por fãs, não apenas de literatura, como também de filmes e séries de televisão.

O bruxo criado por J.K. Rowling não é campeão apenas na vendagem de livros, é também o personagem que inspira mais histórias. No Brasil, o maior Fandom (nome dado aos sites que reúnem as fanfictions) é o Potterish.com, com mais de 11 mil histórias e cerca de 40 mil membros. Para o editor do Potterish, Marcelo Neves, estas criações mostram a influência dos livros: “As fanfics são a prova que mais e mais pessoas estão desenvolvendo o hábito da leitura e escrita e também servem para amenizar a ansiedade dos fãs enquanto esperam a continuação da saga”. A professora Márcia Ivana elogia o trabalho dos fãs: “As fanfictions têm uma capacidade maravilhosa de imaginação e também são uma forma do autor conhecer melhor o leitor”. Existem exemplos na literatura em que a opinião dos leitores ajudou a mudar os rumos de um texto literário. O autor José de Alencar mudou o desfecho de O Guarani por causa da insatisfação do público que não acreditava na relação de Ceci e Peri. Atualmente uma obra consagrada, como Harry Potter, não tem como seguir os desejos dos leitores e a trama fica a cargo da autora. “J.K. Rowling sempre teve a história planejada e seguiu com ela até o fim”, comenta Neves.

Mesmo que os escritores não sigam à risca as vontades dos leitores, o que não falta são estilos literários para escolher. “O mercado editorial nunca publicou tanto e está muito democrático. Isso não significa que a qualidade seja o parâmetro para que aquele texto faça sucesso. Há o trabalho da mídia e o interesse do leitor que tem um pouco de medo de experimentar o novo”, reconhece Márcia.

A reinvenção constante da literatura é uma de suas principais característica e pode levar do novo ao velho. “Muitas matérias da literatura tradicional já estavam esquecidas e por terem sido retomadas por escritores contemporâneos faz com que sejam discutidas de novo”, diz Sissa Jacoby, professora da Faculdade de Letras da PUCRS.Mais importante do que comparar a literatura do passado e do presente é saber aproveitar as diferenças, como a professora Márcia destaca: “É bom que as pessoas leiam escritores como Agatha Christie e Paulo Coelho porque assim o leitor vai se capacitando para uma leitura mais aprofundada, até que ele comece nas histórias em quadrinho e chegue a Guimarães Rosa”. Apenas lendo é possível pensar e entender a literatura em sua totalidade.

No próximo Receituário: descansem bastante os olhos...

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A insustentável leveza de ser Amélie...

Desde que mostrou ao mundo o seu fabuloso destino, Amélie Poulain tornou-se um símbolo, a maiorias das garotas gostariam de ser essa personagem cinematográfica! Mas a Amélie dos meus sonhos é a outra, de carne e osso, real e com o sobrenome igualmente estranho e com sotaque francês.

Amélie Nothomb é a escritora que me levou a parar de escrever. Essa afirmação soa tão confusa quanto muitas das tramas nos livros desta escritora belga, mas essa é a verdade. Contrariando a natureza que faz com que o fã se inspire no ídolo, eu parei de inventar histórias depois que li Higiene do Assassino. Tudo o que pudesse sair de ficcional da minha cabeça não seria nem ao menos metade tão interessante do que as histórias de Amélie. E se não é para ser bom, então é melhor não ser!!!

Cativada na primeira leitura daquela literatura tão estranha e nova. Na orelha do livro o estranhamento já começava: "Um câncer raro desafia o octogenário Pretextat Tach...". Quem diabos chama alguém Pretextat?! A descrição do personagem também não é algo muito favorável: "Pretextat é uma figura repulsiva. De tão gordo, vive preso a uma cadeira de rodas por não ser mais capaz de andar...". Nada, por mais ultrajante, nojento, ou seja qual for o defeito, me impedia de devorar cada palavra daquele livro que mudaria minha vida.

O estranho é o que há de mais intrigante! Seguindo a ordem veio As Catilinárias. Mulher com um gosto requintado para nomes e palavras difíceis. Mas Amélie é a rainha das catilinárias, das acusações violentas e eloqüentes, por isso é tão bem definida como alguém que "conta histórias perversas do mesmo modo como algumas crianças se divertem arrancando asas de insetos". Essa belga perturba nossos pensamentos com o seu cinismo que faz com que o desejo de um dia ser ela cresça sem fronteiras.

Atingimos a um ponto que não há mais como negar: Amélie nasceu para escrever e eu serei eternamente grata por isso. Em A Metafísica dos Tubos, nada se restringe a papos filosóficos enfadonhos, porque ela inova recriando a forma de se escrever uma autobiografia. Mas espere um instante, como pode ser um retrato da escritora se eu posso me enxergar tão bem em suas descrições? Lendo sobre os jovens tubos, pude entender finalmente o grande poder do chocolate branco. Ficou tudo confuso? Que continue assim porque eu nunca poderia entregar os divinos segredos dessas obras que merecem ser lidas, uma, duas, três, quatro, cinco vezes...

Então, se Pretextat já era incomum, que tal Plectrude?! Mesmo que o livro seja entitulado Dicionário dos Nomes Próprios, Plectrude não pode ser considerado um nome. É na verdade uma sina que só poderia ser o ponto central de uma trama onde a escritora embarca mais uma vez no ramo das biografias, mas dessa vez supera a si mesma e descreve ninguém menos do que o próprio assassino. Eu já deveria ter avisado, mas antes tarde do que nunca: Amélie não deve ser entendida e sim vivenciada.

Não queria que fosse o fechamento, mas se não há outra opção... Medo e Submissão foi o último livro que li desta que ainda nem chegou aos 40 anos. Poderia haver outros se as editoras se dignassem a apurar a publicação de suas obras aqui no Brasil. Talvez de todas as suas histórias, essa tenha sido a que mais me deixou a desejar. Por alguns momentos pensei, "Amélie não é infalível", mas como ela é uma caixinha de surpresas, logo surgiam pérolas que faziam com que eu calasse a boca e me ajoelhasse em devoção a ela mais uma vez. Então em algumas palavras ela definiu tudo o que sempre quis ser: "Quando pequena, eu queria tornar-me Deus. Não demorei a me dar conta de que seria pedir demais, e verti um pouco de água benta em meu vinho de missa: seria Jesus. Mas logo tomei consciência do meu excesso de ambição e aceitei 'fazer-me' de mártir quando fosse grande".

Por Amélie perdi a vontade de escrever mesmo com ela dizendo: "Escrever me dá um prazer intenso, é amoral que me paguem por isso". E eu sinto prazer ao pagar pelos livros de Amélie, por quanto tempo isso será suficiente, eu não sei. Quem sabe um dia eu crie a biografia da autora que acabou com minha vontade de escrever. A trama já começa de um ponto de vista bem ameliano...

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Tanto tempo sem escrever... apenas dois motivos: revisitar a obra de Amélie antes de escrever sobre ela e eleger prioridades. Como alguns já sabem, estou me sentindo o Coelho Branco da Alice no País das maravilhas. Depressa, rápido, não vai dar tempo...

A Revista YMSK foi atualizada. A Discotopia com a segunda parte da lista com os maiores festivais de música está lá, assim como um perfil da Björk. Também tem elogio que será lembrado por mim a vida inteira. Um dia pago o responsável por isso!

No próximo Receituário: 5 artistas que você não pode deixar de ouvir...