quinta-feira, 5 de março de 2009

Desde quando discernimento virou prepotência?


Passei o último semestre de 2008 tentando responder a perguntas como: o que é uma crítica de música pop de qualidade, qual a situação do jornalismo cultural atualmente, afinal o que pode ser definido como música pop... A tentativa de encontrar respostas para estas dúvidas rendeu meu trabalho de conclusão, uma ótima nota, um convite para fazer mestrado e também um dos maiores elogios que já recebi na minha vida.

Mesmo não citando nomes, digamos que o “Mestre Miagui” do jornalismo cultural, além de elogiar minha capacidade como pesquisadora, afirmou que com meu conhecimento posso fazer parte de qualquer redação e trabalhar com jornalismo cultural onde eu quiser. Não preciso dizer que naquele instante ouvi tudo o que eu precisava para continuar acreditando que é isso que eu quero e que também posso fazer. No entanto...

Sempre há alguém para colocar em dúvida o quão bom tu podes ser. E se você quer se formar em uma faculdade de jornalismo ou aprende essa lição rápido, ou então passa o resto da vida sofrendo. Não duvido que em todas as profissões seja possível encontrar pessoas que estão preparadas para puxar o seu tapete ou minar a sua confiança, contudo por mais que eu tenha conhecido jornalistas que também são seres humanos incríveis, é difícil não perceber que a maioria te trata como concorrente. É quase um BBB acadêmico.

Certo dia, eu já feliz da vida, formada com diploma na mão, me vi cercada por uma discussão que tinha como foco julgar porque eu sou tão “prepotente” a ponto de achar que tenho conhecimento o bastante para ser jornalista de música. O argumento principal da acusação era o fato de eu ter dito que não gosto de Kraftwerk. Não quero me estender contando os mínimos detalhes do meu julgamento, só apresento minha defesa final:

Eu não sou obrigada a gostar de tudo. Existem músicas – assim como filmes, pinturas, livros e até novelas – com as quais a gente cria certa identificação ou então aprecia, pelo menos, a melodia. Em momento algum depreciei a importância deste grupo alemão, pelo contrário. Reconheço que eles tiveram um papel essencial como influência para diversos dos meus artistas prediletos como David Bowie. De forma mais prática, pego como exemplo a canção Hall of mirrors. Para a música pop em geral ela é tão significativa que já foi regravada por gerações diferentes. Na minha seleção privada – aquela que é só minha e que por isso está imune a qualquer julgamento feito por alguém que se considere um expert em música – Siouxsie and the Banshees figura na prateleira de favoritos. E esta banda inglesa fez uma versão para tal música que eu adoro. Da mesma forma que o Pink Floyd deu sua própria cara para Hall of... e eu continuei achando ela um saco (e que agora venham as pedradas)!

Jornalistas com seu maldito complexo de Super-homens...
O discernimento para distinguir qual é a opinião pessoal e qual é a profissional é algo que falta na cabeça destes extremistas. No fundo a cada dia que passa eu tenho mais a impressão de que na verdade eles nem entendem tanto assim de música como dizem entender. Parece que apenas pegaram a lista de aclamados pela crítica e de duas uma: ou eles são contra ou completamente a favor. Não há meio termo, o objetivo é colocar a lenha na fogueira e posar de sabe tudo.

Este pseudo-complexo de Super-homem foi mencionado uma centena de vezes enquanto eu ainda era mera aluna de jornalismo. Mas no dia 26 de janeiro de 2009, eu tive uma prova irrefutável que essa doença existe (apesar que em certos momentos me pareceu que meus colegas de profissão tem mais mania de perseguição do que qualquer outra coisa).

Estava eu no show do James Blunt (pode rir, mas eu me diverti pra cacete e este era meu único objetivo) e logo na minha frente estava parado um jornalista de um dos veículos de comunicação mais importantes do Rio Grande do Sul. Apagaram-se as luzes, o show começou e eu percebi que o rapaz tirou de dentro da mochila uma pilha de papéis imensa. Intrigada pela situação, passei umas três músicas praticamente sem olhar para o palco, focada apenas no homem de uns 35 anos, baixinho e meio calvo postado na minha frente, revirando aquele mundaréu de folhas.

Minha curiosidade fez com que eu tentasse enxergar no escuro o que tinha escrito (algo que até ele estava com dificuldade de fazer). Depois de um tempo percebi que ele tinha imprimido todas as letras das canções do músico britânico. Então, este era o processo que ele fazia: ouvia as primeiras frases da música e então procurava numa lista se tinha algum nome que poderia remeter a letra. Se não tinha, ele passava procurar a frase que tinha ouvido, página por página, até encontrar a música da vez.

No início até achei a situação engraçada, mas depois de um tempo aquilo foi me dando nos nervos. Até que criei coragem, cutuquei o ombro do jornalista e ofereci ajuda dizendo que se ele quisesse saber o nome das músicas era só perguntar. A reposta foi um seco “não, obrigado”. Ainda no auge da minha simpatia respondi: “Sem problema. Qualquer coisa se tu quiser meu celular tem lanterna e fica mais fácil de enxergar.” Como sempre achei, gentileza e educação desarma qualquer um, passou um tempo e o “colega” virou para trás e agradeceu mais uma vez mas disse que não precisava porque ele tinha o setlist e só tava conferindo. "Com certeza "aquele maço de A4s era a lista com a ordem das músicas. Só se o James Blunt continuou o show por mais umas 8 horas depois que eu fui embora. Ou então o afilhado musical de Elton John tem TOC, que nem o Roberto Carlos, e só possa tocar as músicas em ordem alfabética. E para a situação ficar mais embaraçosamente engraçada, ele ainda completou (se afundando ainda mais na lama): “Eu conheço todas as músicas, só não sei ligar a melodia a cada uma”. Claro, sim e eu sou filha da Angelina Jolie.

No fim das contas eu até acho que o profissional com crachá de imprensa ficou meio envergonhado por eu ter percebido a sua falta de preparo. Sai indignada do show, pensando que aquele cara está empregado para fazer um trabalho lamentável daqueles, enquanto eu, que tenho certeza que faria bem melhor, estou aqui recebendo um não atrás do outro. Mas sem rancores... depois que o meu ânimo se acalmou tudo o que podia pensar é que quero estudar e me preparar ainda mais para o dia em que a minha oportunidade surgir. Quem souber de palestras, cursos, livros, oportunidades de trabalho, o que for, em jornalismo cultural, me avise, por favor. Juro que não vou fingir que não preciso de ajuda. Este mal das redações não me pegou.

E agora...
Enquanto continuo estudando e trabalhando (dando aulas de inglês), ressuscito o Receituário Pop e desta vez é sério. Por isso se quiser recomendar pautas, sugerir discos, livros, seriados, filmes, etc para avaliação é só deixar comentário ou então mandar email. Sem assunto, às vezes fica difícil de atualizar.
No próximo Receituário: na ilha, mas sem Scarlett Johanson e Ewan McGregor.

4 comentários:

Lívia disse...

que bom que tu voltou! \o/
que boboca o cara no show do james blunt. aliás, eu não imaginaria que tu gostava dele. =P
beijos!

Persiolino disse...

Lid, primeiramente, parabéns pela formatura. Agora (e sempre) é sair para a batalhar. Tenho certeza que você vai conseguir o tão desejado emprego (se é que já não conseguiu).
Bom, sobre o show do James Blunt, acho engraçado este tipo de situação. Se o seu companheiro de profissão foi mandado para cobrir o show do Blunt, acho que no mínimo ele deveria ter se preparado, ouvido os álbuns, procurar saber qual o set list dos últimos shows, essas coisas.
Eu, como consultor, muitas vezes vou em empresas de diferentes setores industriais (já fui em bancos, químicas, aeronáutica e alimentícia). Não sou profundo conhecedor de todas elas, mas sempre que eu vou num cliente procuro entender como é os processos industriais antes de ir. É o mínimo que se tem que fazer. Bom, é verdade que na situação relatada por ti o tal jornalista imprimiu as letras, mas acho que não foi a melhor forma de se preparar para cobrir o show. Imagine se este mesmo jornalista fosse a uma coletiva com Blunt. O que ele iria perguntar???
Bom, já escrevi demais. Espero que continue a escrever no blog...
Beijo
Pérsio

Persiolino disse...

Lid, primeiramente, parabéns pela formatura. Agora (e sempre) é sair para a batalhar. Tenho certeza que você vai conseguir o tão desejado emprego (se é que já não conseguiu).
Bom, sobre o show do James Blunt, acho engraçado este tipo de situação. Se o seu companheiro de profissão foi mandado para cobrir o show do Blunt, acho que no mínimo ele deveria ter se preparado, ouvido os álbuns, procurar saber qual o set list dos últimos shows, essas coisas.
Eu, como consultor, muitas vezes vou em empresas de diferentes setores industriais (já fui em bancos, químicas, aeronáutica e alimentícia). Não sou profundo conhecedor de todas elas, mas sempre que eu vou num cliente procuro entender como é os processos industriais antes de ir. É o mínimo que se tem que fazer. Bom, é verdade que na situação relatada por ti o tal jornalista imprimiu as letras, mas acho que não foi a melhor forma de se preparar para cobrir o show. Imagine se este mesmo jornalista fosse a uma coletiva com Blunt. O que ele iria perguntar???
Bom, já escrevi demais. Espero que continue a escrever no blog...
Beijo
Pérsio

Susy disse...

Foi um dos melhores textos que já li, ultimamente!
APLAUSOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!