sexta-feira, 4 de julho de 2008

Mais do que nostálgia

Os anti-saudosismo costumam pensar que uma banda vir tocar no Brasil é decadência. A não ser que seja uma banda novata, daí costuma ser moda. No entanto, quem esteve no Bar Opinião, em Porto Alegre, no dia três de julho de 2008, pôde definir o Echo and the Bunnymen de diversas maneiras, menos de decadente.

Nas conversas paralelas do público durante a espera para o show, havia um elemento nostálgico no ar. Mas entre lembranças dos primeiros discos comprados, músicas que marcaram época e até mesmo a propaganda do sapato que tinha como trilha Pink Floyd, a ansiedade parecia de adolescentes.

A sessão saudade foi interrompida pelo som de uma música gregoriana. Seis músicos tomaram seus lugares com pontuais 30 minutos de atraso. Os únicos remanescentes da formação original eram Ian McCulloch e Will Sergeant, mas isso não diminuía o entusiasmo dos fãs. O começo mantinha o clima sacro com “Going Up, seguida da animada e inquisitiva “Rescue”. Daqui para frente o público só ficaria quieto nas duas músicas novas, mas a calmaria não era de tédio e sim de concentração no pensamento: “Está ai mais um disco que eu devo comprar”.

Com um repertório de sucessos, o Echo pode se arriscar, queimando suas canções mais conhecidas logo no início. De cara o público foi presenteado com a seqüência “Seven Seas” e “Bring on the dancing horses”. A linda “Stormy Weather” preparou os corações para a emoção que viria a seguir. Sai guitarra, entra um violão e temos a clássica “The Killing Moon” acompanhada da divertida “The Cutter”.

Os anos de prática fizeram de Ian McCulloch um frontman espetacular. Sempre conversando entre as canções, ele mostrou que para um grande show de rock não é preciso um palco enorme, coberto de parafernálias eletrônicas: basta boas músicas e empatia com o público. Ian não quis saber de ficar andando pelo palco. Seus poucos passos se direcionavam para o fundo, aonde mantinha uma garrafa de água, um copo de whiskey e diversos cigarros. Fumando compulsivamente, ele se colocava na frente do microfone, quase imóvel, deixando apenas que sua voz percorresse por todo o espaço. E mesmo com os anos de tabagismo desenfreado e consumo de álcool, é impressionante o poder vocal do inglês de 49 anos. O que você ouve nos discos de estúdio do Echo, ou em sua carreira solo, é o que encontra também ao vivo.

Mas o tempo também passa para os músicos com 30 anos de banda. Depois de uma hora de show eles deixaram o palco. Porém não era o fim. Na volta a retomada aconteceu com uma colagem perfeita de “Nothing last forever” com “Wildside” de Lou Reed e “Don’t let me down” dos Beatles. Se McCulloch estava tornando aquela noite fria na capital gaúcha, mais quente e memorável, o guitarrista Will Sergeant permanecia no canto esquerdo do palco, quase que em transe, se comunicando apenas com sua guitarra. Mas no segundo bis, uma versão extendida de “Lips like sugar”, ficou claro que Sergeant podia permanecer quieto no seu lugar, porque seus riffs falavam por si.

Os gaúchos ainda queriam mais. Ansiosos clamaram pela volta da banda. Para tranqüilizar os ânimos, um dos roadies fez um sinal que predizia que ainda haveria um terceiro bis. Assim foi possível ouvir o cover respeitável de “People are strange” do The Doors e o fechamento perfeito com a belíssima balada “Ocean Rain”. Uma hora e meia de show completa e a sensação de que o que é bom acaba muito rápido era clara.

Da mesma safra de grupos deprimidos oitentista, como The Cure e The Smiths, o Echo and the Bunnymen sempre me pareceu o mais esperançoso entre eles. Ian McCulloc chegou a afirmar que sua missão era escrever perfeita, como se através dela pudesse fazer do mundo um lugar melhor. Pode-se dizer que ele atingiu a meta com "The Killing Moon", o ápice da noite. Acompanhada por um coro de vozes voluntárias, ela foi capaz de fazer o vocalista para de cantar para parabenizar seus fãs com um: "That's awesome!". No fim do show, a platéia é que deveria agradecer gritando: "Não Ian, você é que é maravilhoso!".


No próximo Receituário:
let's get dirty?!

8 comentários:

Josiane disse...

Lidi, conseguiste me levar para o show atravás de tuas palavras!
Beatiful as always :)

Josi

Maitê disse...

Lidi, vc vê, meu amigo disse que o show foi muito palha. Que ele não curtiu muito. Mas vc, bah, adorouuu. E agora, em quem eu confio? ahahah

Bjo

Livio disse...

começaram com 'going up' e seguiram com 'show of strenght'?

achei essa parte a mais foda quando eles passaram aqui no rio há 2 anos atrás.

Ingrid Guerra disse...

Adorei o texto, embora não tenha a mínima idéia de quem sejam as criaturas, sim... sua amiga ignorante musical já deve ter ouvido alguma canção, mas não liga nomes às pessoas, apenas fisionomias. Então, quando meu ânimo voltar, irei até o Youtube checar isso. Beijos ma petite!

Lidiana de Moraes disse...

Respondendo:
1- Josi: thanks my dear!!!
2- Fofety: se a opinião musical do teu amigo se limita a dizer que foi palha, desculpa, mas eu não levo em consideração!
3- Ingrid: como sempre eu digo que teu conhecimento musical não é tão ruim assim. Tu só tem dificuldade de ligar nome a pessoa hehehe...
4- Lívio: como eu não fui no show não tenho como opinar. Só sei que eles mandam muito bem!

Denis Pacheco disse...

sua resenha me deu saudades dos tempos em que eu era crítico de música, rsrsrsrs. hj sou só um pálido tremeluzir de crítico.

Confesso q "Killing Moon" e "Ocean Rain" são meu máximo conhecimento de Echo, mas acredito piamente que as duas valem o show! O encerramento deve ter sido apoteótico!

Bjao!

Fabrício disse...

"Star Sax, o calçado da nova geração." E seguia caminhando nos trilhos da ferrovia...

Rafael Terra disse...

Foi uma linda noite :)